Multiplasingularidade

Um espaço singular e coletivo sobre o que é meu e que também diz respeito aos outros. Onde irei compartilhar os passos nessa trajetória que estou experienciando.

O brincar!

 

O brincar

O brinquedo não brinca só

Brinca este na dança entre o Ser, a alma e a história

Dança que balança e movimenta

O brinquedo que brinca, que é brincado se faz brinquedo só se manipulado

Se faz de desejo, movimento, futuro e passado

A brincadeira não se faz só

O brinquedo não brinca só.

 

Lembro das brincadeiras de infância, principalmente quando ia passear na casa da minha avó e tudo podia virar brinquedo, uma varinha, um pote, os vaga-lumes, as folhas, os caquis que viravam vaquinhas,… Tudo se fazia brinquedo através da imaginação, da fantasia, do experienciar.

As vaquinhas de caqui eram engraçadas, lembro muito bem delas, afinal pra mim essa ainda é a única finalidade da fruta. O pátio da casa da vó era cheio de caquis com suas perninhas de gravetos, e suas cabeças de frutas menores e em volta várias crianças fazendeiras cuidando de seus animaizinhos, construindo um mundo povoado de fazenda, cocheira, bebedouro, caminhões de transporte, etc. um mundo de trocas, de construções de sentido. Um mundo de brincar, no final do dia as vaquinhas voltavam a ser caquis e nós encontrávamos outros coisas para brincar e hoje os caquis/vaquinhas ainda fazem parte da minha memória, do meu modo de perceber o mundo.

O brincar winnicottiano não vem então atrelado ao brinquedo, tem a ver com o conceito de criatividade, brinca-se a vida inteira ou melhor dizendo, só há vida quando se brinca. Winnicott distingue a criatividade das outras atividades culturais; ela difere da criação, termo mais apropriado para a produção do trabalho de arte. (BITTENCOURT, p. 108, in PODKAMENI; GUIMARÃES, 1997)

No primeiro atendimento que fiz com o meu paciente I. de 6 anos, estava um pouco curiosa em como seria o brincar com a criança, sei brincar com a minha irmã e com outras crianças que convivo, gosto bastante, mas é de forma muito natural sem uma finalidade terapêutica. O brincar na clínica não, este tem objetivo, se faz como dispositivo e isso me causava curiosidade e dúvidas. No dia convidei I. para entrar, achei que pelo comportamento do 1º dia de não querer sair de perto da mãe ele se recusaria de entrar sozinho, mas não. Entramos na sala, e logo ele foi observando tudo à sua volta, perguntei se ele gostaria de pegar algo, ele foi logo pedindo se podia desenhar. Desenhou uma casa e uma árvore (e olha que nem apliquei um HTP na criança), terminou o desenho e buscou outras coisas para brincar, a fazenda, a família terapeutica, um avião, dois carrinhos, os Power Rangers, os blocos de construir, etc.

Ao acompanhá-lo já estava sentindo-me familiarizada com a brincadeira, chegando em um ponto, onde estava brincando do modo que eu brincava quando criança, talvez por ser o brinquedo os Power Rangers( que fizeram parte da minha infância). Nesse momento parei e pensei que a criança é que deveria conduzir a brincadeira. Continuamos a brincar, desta vez acompanhando e participando do fluxo do brincar da criança.

Lembrei do que havia lido no livro “O brincar e a realidade” do Winnicott onde ele fala:

A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado que o é. (WINNICOTT, 1975, p. 59)

Bom, com I. foi  possível o brincar e este foi revelador já neste início de algumas questões que na entrevista com a mãe ficaram confusas. Achei encantador!

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