Multiplasingularidade

Um espaço singular e coletivo sobre o que é meu e que também diz respeito aos outros. Onde irei compartilhar os passos nessa trajetória que estou experienciando.

Encontros de vida que se faz vivendo.

A menina do coração de chocolate.

Juliana tem nove anos, é uma menina de olhos esbugalhados, com sorriso fácil, ao primeiro olhar já se vê gigantes pontos de interrogação surgindo por todo lado, pergunta, entende e pergunta outra coisa e no meio disso tudo surge alguma coisa nova que guardamos em uma caixa.
Quando a conheci o que mais chamou a atenção foi a sua criatividade, o modo como gostava de desenhar corações que imaginava de várias formas. O primeiro foi um enorme balão em forma de coração de chocolate com um barbante azul, desenhou o coração e começamos a falar de chocolate, nem parecia a menina que foi encaminhada por outro profissional onde no relatório falava-se muito em neurose, problematizava a relação com o pai, a agressividade e problemas de aprendizagem e nada falava de sua criatividade e riso fácil.
Ao longo de nossos encontros, percebi que ela estava muito distante daquela menina dos relatos, meros papéis que não conseguiam conter toda energia dela, aqui nesse relato ela também não cabe, e nunca irá caber, pois está por ai pulando, correndo, perguntando tudo. Entendo que esses sintomas e queixas devem ser investigados, mas discordo do modo como muitas vezes reduzimos a apenas isso, esquecemos todas as potencialidades que o sujeito tem para, além disso.
As brincadeiras que Juliana e eu criamos, trazem pedacinhos de vida, dessa energia que vibra junto com o seu pular. Juntamos tudo, a mãe, o pai, a escola, amigos, as brincadeiras, as queixas e tudo que pode falar dela. O que fazemos hoje é brincar de quebra-cabeça e juntar esses pedaçinhos da menina do coração de chocolate e ajudá-la a construir um mundo onde tudo possa se encaixar da melhor maneira possível para um dia ela poder voar junto com aquele balão de chocolate com barbante azul pelo céu refletindo seu sorriso fácil.

O campo como possibilidade de encontro.

Fábio um menino de 10 anos, bastante envergonhado, em nosso primeiro encontro quando perguntei o motivo porque estava ali disse: – Porque eu sou gordo. Sorriu envergonhado e ficou me olhando com seus lindos olhos azuis, fiquei desconcertada no momento, olhei para o lado, sorri amarelo e não soube o que falar, perguntei da forma mais descontraída possível: – Tá, mas e o que tem isso? Ele me responde que com isso pode ter diabetes e problemas cardíacos. Na hora achei estranho, de onde uma criança de 10 anos tira isso? Isso é um tipo de preocupação que se tem aos 10 anos? Lembrei que na primeira entrevista isso foi um dos motivos de trazerem ele para terapia. Olhei para ele, medi seu índice de massa corpórea mentalmente e pensei é, pois é, acho que ele ta gordinho mesmo. Fui pega, olhei pro sintoma e esqueci do menino, que continuava ali com seus olhos azuis querendo saber o que eu também achava disso.
Convidei Fábio para brincar, jogamos alguns jogos e ele não parecia estar contente. Foram um, dois, três encontros buscando algo que interessasse a ele, não queria brincar, não gostava de desenhar, durante os jogos ficava com uma expressão de insatisfação, e não falava muito, apenas quando questionado e mesmo assim falava pouco. Focar no assunto sobre peso, calorias, comida, definitivamente não seria o que “pegaria” Fábio, sobre isso todos os outros lugares por onde ele circulava já falaram. Precisava conhecer ele, da forma mais detalhada possível, fazer o que chamamos, eu e meu supervisor de espreita analítica, um termo criado por nós para definir um movimento de conhecer o paciente, descobrir seus gostos, sua rotina, aonde vai, quem anda com ele, o que faz, seus hábitos como o movimento do caçador à espreita da sua caça, esse processo leva certo tempo, e precisa ter paciência e desejo de conhecê-lo.
Em um determinado dia, ao fazer a pergunta costumeira: _ Como foi a tua semana? E uma resposta: _ Matamos um boi. Encontrei a linha, uma simples linha de encontro entre uma pergunta e “plim” encontrar algo que lhe afetasse. Fábio passou o encontro inteiro falando como sua família vive, uma constelação gigante, muito diferente da minha realidade, heranças culturais passadas de pai para filho, o orgulho de ajudar o pai e o avô no processo de carnear e a certeza de que ele também fará isso assim como eles. Depois desse dia foram horas de passeio no campo, de vacas, cavalos, coelhos e plantações tudo sem sair do lugar. Aprendi a matar um boi, fazer morcela e como se faz queijo tudo isso ali sentada na cadeirinha com um monte de lápis de cor na mão.
Fábio não parecia o menino gordinho do primeiro dia, tão vibrante, nessa hora não parecia se preocupar com o diabetes nem os problemas cardíacos. Como se espera da maioria das crianças de 10 anos.
Fui buscar o local onde ele participa de um programa de reeducação alimentar, tentar entender se era de lá que ele tirava essa preocupação toda com a obesidade. Descobri que eles têm uma preocupação bem forte com a questão de saúde, doença, apesar de perceberem a importância de olhar para as questões psicológicas, mas não possuem um profissional especifico para dar esse olhar. Combinamos de fazer um trabalho conjunto, auxiliando a perceber essas outras questões não só com Fábio, mas com outras crianças também.
Quanto ao menino gordo que pode ter diabetes e problemas cardíacos que volta e meia surge em nossos encontros eu e Fábio damos um jeito de achar um lugar pra ele, onde ele possa ser feliz de forma saudável acima do peso ou não.

Enlaces (…)

A ideia de relatar esses dois casos em forma de prosa, diferente de um modelo científico cartesiano, surge através da possibilidade de mostrar a essência desses casos como existências leves e alegres, trazer o imaginário infantil na literatura e buscar um encontro com a infância não só através das experiências, mas também de um relato. Experimentar!
Já dizia o poeta Antonio Machado y Ruiz “Caminante, no hay camino, se hace camino al andar. ” Essa frase é a que melhor descreve o percurso do meu estágio em clínica, e muito se aproxima ao meu ver, da ideia de cartografar que Rolnik (1989) descreve como um desenho que se faz ao mesmo tempo que se acompanha o processo de mudança da paisagem, o procedimento do cartógrafo é inventado através daquilo que pede o contexto em que ele está. Isso é o que me vi fazendo no encontro com a clínica da esquizoanálise uma experimentação a partir da paisagem que ia surgindo. Vou sentindo o que cabe em cada momento e contexto e seguindo esse fluxo, inventando e reinventando, experimentando modos de fazer clínica. Essa experimentação também guia meu modo de tornar-me profissional, aonde vou testando ferramentas que possam me auxiliar neste caminho, este relato é uma delas.
O processo de dar-se conta dessas possibilidades, abandonar a busca das pedras amarelas e adentrar em labirintos, portas certas e erradas e mesmo criar novas portas e janelas foi onde encontrei a experimentação e o olhar para as potencialidades/possibilidades desses sujeitos.
Existe uma ideia que impera, do que é bonito, do que é saudável, do que é esperado. Esse componente simbólico que nossa sociedade produz e espera para essas crianças e que elas mesmas esperam é uma imagem de representação coletiva. Isso pode ser mudado, através da criação de novas possibilidades. Ser capaz e possibilitar que elas proponham novos sentidos para além do que o olhar desatento percebe, para além do sintoma.
Existe uma linha tênue que define a escolha de perceber a vida como excesso ou a vida como falta. Essa escolha é o que norteia o olhar, o cuidado, as atitudes que se dão no espaço da clínica, Mas também na vida em geral. Você prefere ver essas crianças como sintomas ou como possibilidades?

Referências
ADAIME, R. Clínica experimental: programa para máquinas desejantes. 2007. 114f. Dissertação(Mestrado em Psicologia) – PUC-SP. São Paulo; 2007.
ALMEIDA, V. B. Cartografia da alegria na clínica e na literatura. 2005. 129 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – PUC_SP. São Paulo; 2005.
ROLNIK, S. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina; Ed. UFRGS, 2006.
RUIZ, M. A. Poesias completas. Madrid; Ed. Espasa-Calpe. 1997.

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1 comentário

  1. bilera

    Oi…
    O link do blog do pessoal do 5º
    http://psicojuris.blogspot.com/
    Abraço

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