Multiplasingularidade

Um espaço singular e coletivo sobre o que é meu e que também diz respeito aos outros. Onde irei compartilhar os passos nessa trajetória que estou experienciando.

Entrevista de desligamento

O estágio na Coca-Cola tem me proporcionado o contato e aprendizado de algumas coisas bem interessantes, uma dessas coisas, que percebi hoje a importância, é a Entrevista de Desligamento, que tem como objetivo colher o máximo de informações e/ou impressões que ele leva da empresa, problemas percebidos, sentimentos assim contribuindo para o processo de melhoria da empresa, além disso, tem a função de dar apoio ao ex-colaborador, e isso eu acho o mais importante.

A demissão geralmente é um momento muito difícil, principalmente quando se faz um investimento muito grande no emprego ou se cria grandes expectativas. Lembro de acompanhar minha mãe em seus empregos e do quanto ela se dedicava ao máximo, procurava sempre ser muito responsável, ética e correta, apesar disso lembro de algumas vezes que ela foi demitida, uma devido à falência da empresa, outra por ser cargo de confiança e em função de troca de partido não poder continuar e a última quando ficou muito doente e foi demitida muito, mas muito injustamente. Ao lembrar desses fatos me sinto ainda muito triste, principalmente por causa da última e percebo que a pior coisa foi ninguém ter perguntado a ela como se sentia, nem dado nenhum tipo de escuta, simplesmente uma carta de demissão.

Talvez a escuta desse ex-colaborador, o fato de ele perceber que alguém quer saber como está se sentindo e ele poder falar é algo que dá alguma vazão pra esses sentimentos, mesmo a demissão sendo inevitável ele ainda é cuidado de alguma forma pela empresa. Provavelmente não é este o olhar que a empresa tem dessa entrevista, mas acredito que é um olhar que o psicólogo organizacional deve ter.

 

Mudanças no Blog

Como da para perceber estou retomando as escritas no Blog, com isso resolvi fazer uma mudança fundamental. Tenho sentido há algum tempo a necessidade de ampliar um pouco esse espaço, que se constituiu até então com a proposta de falar sobre as experiências na clínica escola. O que acontece é que existem tantas outras coisas, que mesmo não sendo experiências da clínica, influênciam nesse estágio que sinto a necessidade de falar também delas.

Sabe essas coisas do dia-a-dia, família, faculdade, trabalho…E também os acontecimentos – os planejados e os de improviso. Acho queo nome do blog já diz dessa multiplicidade de coisas, que nos subjetivam, que atravessam nossas vivências.

Por isso informo que de hoje em diante esse é oficialmente um blog múltiplo. E isso não quer dizer que não irei mais falar da clínica (meu foco ainda é esse) mas falarei de outras coisas também! Não encaro a clínica como algo fechado, desconectado do resto, mas sim como algo que que vai seguindo um fluxo se ligando a outras experiências, se afetando de forma a produzir outros caminhos.

“Assim, o essencial na individualização é poder se subjetivar rizomaticamente, superando a pessoalidade restritiva de uma identidade fixa e imutável (Jorge Bichuetti).”

Espero que gostem!

Aos meus amigos

Olá pessoas!

Aproveito a data (dia 20 de julho dia do amigo!!! ) para falar do quanto a amizade tem sido importante pra mim nesse processo de estágios. Na verdade não só agora né sempre foi muito importante mas, como a ideia do blog é falar sobre as experiências de estágio direciono dessa forma.

Bom como já escrevi muito aqui, esse processo de entrar para clínica, de começar algo novo foi bastante desafiador pra mim. Houveram vezes que desanimei, que fiquei triste, que surtei por meus pacientes sumirem, foram várias crises. E em todas elas estiveram eles lá: MEUS AMIGOS, me acalmando, me dando apoio, rindo dos meus surtos, me fazendo rir, me deixando chorar. Por isso além do que falei sobre a supervisão ontem ser super importante considero os amigos também parte essencial desse estágio. Amigos de aula, amigos do trabalho, amigos virtuais, amigos de outros tempos, amigos da família, amigo namorado,  amigos que preenchem meus dias e que eu agradeço por isso!

Até logo…

Agradecimento

Ando meio sumida do blog, mas desta vez não é desânimo não!

Estou de férias e num momento de transição, além da mudança para o oitavo semestre (UhuUuull) estou mudando de estágio saindo do CAPs e indo para a Coca-Cola. Mas isso é assunto para um novo post quem sabe.

Quero falar hoje é sobre o primeiro semestre do estágio em clínica, mais especificamente sobre a supervisão de estágio. Pra mim ter alguém me acompanhando nesse processo é que nem diz na propaganda do Master card ” NÃO TEM PREÇO”, tem  sido uma experiência ótima, diferente de outras onde sem supervisão me senti uma estagiária órfã, deslocada, sem saber o que fazer. Lembro do ínicio do estágio quando ainda muito insegura meu supervisor disse que estávamos juntos nisso, aquilo me soou tão estranho, mas depois percebi a importância daquela frase. Acho que a supervisão é isso mesmo estar junto, acompanhar o processo do estagiário. Não tutelar, apesar de no outro estágio me sentir no início uma estagiária órfã não queria em momento algum um pai, um  tutor, mas sim alguém que me ajudasse a pensar, que soubesse do processo que estou passando e construisse comigo os caminhos. É isso que encontrei na clínica, no meu supervisor, que além de me dar esse suporte é alguém que eu admiro muito como pessoa e como profissional e confio também.

Então aqui deixo o agradecimento, ao Psicólogo Douglas Casarotto de Oliveira, pela dedicação, cuidado, paciência, apoio,  disponibilidade, parceria em todos os momentos desse semestre e que venha o próximo!

Obrigado Douglas!

Encontro de Afectos

São 04:47 da manhã e faz muito frio aqui em Santa Maria – RS, imagino que uns 3 ou 4º, estou com gripe, mas mesmo assim pulei da cama, esperei o computador reiniciar 3 vezes e comecei a escrever. Acordei nesse horário atípico e senti vontade de dividir o que está me passando pela cabeça. Ontem tive  um encontro que me movimentou, diria hoje que me afectou de uma maneira bem intensa. Encontrei outras pessoas, por aqui que tem estudado e pensado coisas parecidas e também coisas diferentes das que tenho estudado e pensado, parecia um grupo de estudo sobre esquizoanálise quando me foi descrito no primeiro momento, mas depois percebi que uma definição, um rótulo assim não cabe a um espaço assim, outros conteúdos passam por entre os dedos, agenciando-se em uma rede que se constrói. É um grupo sobre a vida, como me disseram.

Senti vontade de dividir por aqui além disso, também algumas coisas que me movimentaram esse encontro. O texto desse dia era O corpo, a Potência e os Afectos segundo Spinoza, escrito por uma Fisioterapeuta Paula Godoy, e um filme sobre a vida de Spinoza. Até ontem não havia entrado em contato com nenhuma ideia dele, apesar de achar muito familiar seus conceitos. Prentendo em outro post falar melhor desse texto. Agora gostaria apenas de dizer o quanto esse encontro me fez pensar. Uma coisa que achei interessante, foi uma visão sobre a potência dos usuários de crack, apesar de eu entrar em contato a 1 ano e meio com eles, através do estágio no CAPS, ainda não tinha pensado sobre a potência que eles tem, e nem sobre a potência de seus corpos de resistirem a um uso tão pesado algumas vezes. Claro digo que nunca havia pensado sobre a potência, mas percebo toda a equipe trabalhando em cima dessas potências.

Agora vou terminar de dormir…

Relatório

Como já falei outras vezes aqui no blog sou estagiária em um caps e também na clínica-escola, aqui no blog escrevo a respeito do estágio em clínica I.

Bom estou no final do semestre e tenho que apresentar um relatório parcial. Quando comecei a fazer o relatório pensei que iria ser fácil, afinal escrevo frequentemente aqui no blog e só juntar tudo, sistematizar, traduzir para uma linguagem mais adequada, juntar uma teoria daqui e outra dali e PRONTO.

Aii aii aii não está sendo assim, a impressão que tenho é que são muitas informações e não tenho onde encaixá-las. Mas o pior não é isso, sim a questão de que não estou conseguindo fundamentar teoricamente. Além de eu me sentir insegura de usar os conceitos super novos, para mim, da esquizoanálise, não me sinto à vontade de usar os da psicanálise que são os que tenho mais propriedade, devido a minha formação acadêmica estar seguindo essa base. Ai que coisa complicada.

Buenas! Ainda tenho tempo!

Bendito quem inventou o belo truque do calendário, pois o bom da segunda-feira, do dia 1º do mês e de cada ano novo é que nos dão a impressão de que a vida não continua, mas apenas recomeça… (Mário Quintana)

O brincar!

 

O brincar

O brinquedo não brinca só

Brinca este na dança entre o Ser, a alma e a história

Dança que balança e movimenta

O brinquedo que brinca, que é brincado se faz brinquedo só se manipulado

Se faz de desejo, movimento, futuro e passado

A brincadeira não se faz só

O brinquedo não brinca só.

 

Lembro das brincadeiras de infância, principalmente quando ia passear na casa da minha avó e tudo podia virar brinquedo, uma varinha, um pote, os vaga-lumes, as folhas, os caquis que viravam vaquinhas,… Tudo se fazia brinquedo através da imaginação, da fantasia, do experienciar.

As vaquinhas de caqui eram engraçadas, lembro muito bem delas, afinal pra mim essa ainda é a única finalidade da fruta. O pátio da casa da vó era cheio de caquis com suas perninhas de gravetos, e suas cabeças de frutas menores e em volta várias crianças fazendeiras cuidando de seus animaizinhos, construindo um mundo povoado de fazenda, cocheira, bebedouro, caminhões de transporte, etc. um mundo de trocas, de construções de sentido. Um mundo de brincar, no final do dia as vaquinhas voltavam a ser caquis e nós encontrávamos outros coisas para brincar e hoje os caquis/vaquinhas ainda fazem parte da minha memória, do meu modo de perceber o mundo.

O brincar winnicottiano não vem então atrelado ao brinquedo, tem a ver com o conceito de criatividade, brinca-se a vida inteira ou melhor dizendo, só há vida quando se brinca. Winnicott distingue a criatividade das outras atividades culturais; ela difere da criação, termo mais apropriado para a produção do trabalho de arte. (BITTENCOURT, p. 108, in PODKAMENI; GUIMARÃES, 1997)

No primeiro atendimento que fiz com o meu paciente I. de 6 anos, estava um pouco curiosa em como seria o brincar com a criança, sei brincar com a minha irmã e com outras crianças que convivo, gosto bastante, mas é de forma muito natural sem uma finalidade terapêutica. O brincar na clínica não, este tem objetivo, se faz como dispositivo e isso me causava curiosidade e dúvidas. No dia convidei I. para entrar, achei que pelo comportamento do 1º dia de não querer sair de perto da mãe ele se recusaria de entrar sozinho, mas não. Entramos na sala, e logo ele foi observando tudo à sua volta, perguntei se ele gostaria de pegar algo, ele foi logo pedindo se podia desenhar. Desenhou uma casa e uma árvore (e olha que nem apliquei um HTP na criança), terminou o desenho e buscou outras coisas para brincar, a fazenda, a família terapeutica, um avião, dois carrinhos, os Power Rangers, os blocos de construir, etc.

Ao acompanhá-lo já estava sentindo-me familiarizada com a brincadeira, chegando em um ponto, onde estava brincando do modo que eu brincava quando criança, talvez por ser o brinquedo os Power Rangers( que fizeram parte da minha infância). Nesse momento parei e pensei que a criança é que deveria conduzir a brincadeira. Continuamos a brincar, desta vez acompanhando e participando do fluxo do brincar da criança.

Lembrei do que havia lido no livro “O brincar e a realidade” do Winnicott onde ele fala:

A psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o paciente de um estado em que não é capaz de brincar para um estado que o é. (WINNICOTT, 1975, p. 59)

Bom, com I. foi  possível o brincar e este foi revelador já neste início de algumas questões que na entrevista com a mãe ficaram confusas. Achei encantador!

Código de Ética

Nesses últimos dias uma questão tem me preocupado no estágio, é em relação à ética nos atendimentos. Ética de forma bem ampla, pensando principalmente o código de ética do psicólogo e a necessidade da aplicabilidade dele nesse espaço da clínica-escola.

Já na apresentação do código fica clara a importância do mesmo quanto a, um cuidado não apenas com o sujeito que está ali em atendimento, mas também com a própria profissão no sentido que, ao ter um padrão de conduta acaba fortalecendo o reconhecimento social. Essas duas são minhas grandes preocupações no momento, pois além de perceber que quando um profissional, ou um estagiário se descuida dessa responsabilidade com o seu paciente ele não está apenas cometendo um ato de descuido com o paciente (que já é suficientemente grave) mas isso acaba tendo repercussão na figura do profissional, da instituição a qual ele está vinculado e da profissão como um todo.

Essa preocupação que tenho com a ética do psicólogo tem relação com algumas situações que ocorreram comigo, que observo, ou tomo conhecimento na clínica-escola onde alguns estagiários, de forma muitas vezes ingênua, acabam não tendo o cuidado necessário com o sigilo dos atendimentos. Claro que muitas vezes quando ficamos muito mobilizados com determinada informação temos vontade de dividir com alguém, ou com várias pessoas, mas essa é a diferença de um conteúdo que um paciente te traz e de uma fofoca de vizinhas. No caso da última não se tem grandes problemas ao contar e acaba dando, muitas vezes, uma sensação de alívio, de prazer ao contar. Mas quando se trata de algo que um paciente fala, em uma relação terapêutica deve-se ter cuidado para não divulgar, ou quando precisar falar seja em momento de supervisão, discussão de caso, ou de quebra de sigilo, esta deve ser feita em um lugar reservado para preservar a confidencialidade. Nos artigos 9 º e 10º do código do Psicólogo isso fica bastante claro

Art. 9 – É dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim

de proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas,

grupos ou organizações, a que tenha acesso no exercício profissional.

Art. 10 – Nas situações em que se configure conflito entre as

exigências decorrentes do disposto no Art. 9º e as afirmações dos

princípios fundamentais deste Código, excetuando-se os casos previs-

tos em lei, o psicólogo poderá decidir pela quebra de sigilo, baseando

sua decisão na busca do menor prejuízo.

Apesar de existirem outros princípios descritos no código, saliento a importância deste principalmente nesse momento de estágio, onde o estagiário muitas vezes não consegue dar conta dos conteúdos do paciente, angustiado acaba dividindo com outras pessoas, e não em um espaço próprio para isso como a supervisão. No caso dos supervisores estes segundo o artigo 17º, devem, informar, orientar e exigir de seus estagiários a observância dos princípios e normas do código.

Fui!

Os imprevistos…

Há alguns dias estava pensando em retomar os atendimentos com crianças, retomar porque já tive uma paciente de 09 anos que foi apenas uma vez, acabou faltando, e foi desligada. Quando isso me aconteceu estava na fase de frustração com os desistentes e não quis mais atender crianças. Justificando que não gostava da entrevista com os responsáveis. Na verdade não achei a coisa mais confortável do mundo, a única entrevista com a avó da menina que tive, mas também a mulher falava muito, e eu não conseguia interrompê-la, sem contar que a parede atrás dela era de ladrilho e batia o sol da janela, e eu mal enxergava com aquele brilho todo. É eu acho que me precipitei ao falar com apenas um atendimento que não gostava de entrevistar os responsáveis e principalmente em evitar atender crianças.

Mas meu desejo, minha curiosidade foram maiores do que as minhas suposições, conversando com uma colega de estágio que atende crianças e parece ser apaixonada por isso, me contagiei, percebi minha vontade surgindo, fui amadurecendo a ideia, pesquisando um pouquinho, indagando daqui e dali, pedindo ajuda pro supervisor e marquei meu novo paciente, um menino de 06 anos, liguei pra mãe dele e pedi que viesse.

Marquei para uma quinta-feira pela manhã, nos dias antes do atendimento fiquei pensando como iria fazer, entrevista inicial, o que eu teria que perguntar, em que sala atenderia, me programei pra tudo, ok!

Chegou a quinta-feira eles chegaram atrasados, é eles, o menininho também veio, na hora pensei: _Bom, ele fica ali sentadinho na sala de espera com a secretária desenhando, ótimo! Cheguei pra ele e falei isso, e pra minha surpresa, ele se grudou na perna da mãe e balançou a cabeça em sinal de negativa me olhou e disse um NÃO. Eu, a mãe e a secretária insistimos, mas não houve jeito, cada vez ele se agarrava mais na perna da mãe. Na hora pensei:_Poxa não era assim que li no livro!

Mas… Será que não seria muito pedir pra uma criança de 06 anos de idade, ficar sozinho, longe da mãe em um local estranho, com pessoas estranhas? Que tipo de cuidado eu daria pra ele naquele momento, levando sua mãe e o deixando sozinho, contra sua vontade?

Não pensei em fazer outra coisa senão convidá-lo a vir junto para a sala e combinar com ele que eu e a mãe conversaríamos enquanto ele brincaria com o que tivesse na sala. Óbvio que acredito que a entrevista inicial não deva ser feita com a criança junto, porque percebi que houve vários assuntos que a mãe não conseguiu falar pela presença dele, além de algumas pequenas interrupções, mas na hora pensei no contexto da situação, no vínculo que estabeleceria com ele e acho que foi o que podia ser feito.

Pois é, e ai se não está escrito no livro se faz o que?

Da Crise à Potência.

Passeando por um blog que gosto muito, Utopia Ativa de Jorge Bichuetti, que tem se tornado meu “Blog de cabeceira”, encontrei algo que fez muito sentindo. Lá estava no início do post a seguinte frase:

A crise possui no seu âmago uma potência inovadora… Ela representa a falência da vida e do mundo instituído e, assim, a possibilidade de reinventar a vida e o mundo…(Do caos criativo à antiprodução).

A crise e a potência… Relacionei logo com o caos que se encontrava minha relação com o estágio em clínica e todos os momentos de desânimo, as angústias, o vazio. E não é que está passando, me agarrei a coisas que me fazem bem para suportar aquele momento e estou buscando aliar umas as outras, criar novas possibilidades, novas percepções, reinventando eu sigo da Crise à Potência.

Fica a dica do blog, segue o link: http://jorgebichuetti.blogspot.com/